segunda-feira, 25 de maio de 2015

Metades

Cansado de meias verdades e meias vontades, 
Cansado das metades incertas e perversas, Cansado das metades em meio às muros deflagrados de cacos de vidro,
Cansado de vislumbrar uma vida inteira, mas que cisma em estar partida ao meio,  
Cansado de metades jogadas e arquitetadas, Cansado do horizonte ofuscante do meio,
Cansado de olhar o vazio neste desmundo, Cansado do meio, da meia, das metades e de outras medianidades, 
Cansado do meio equilíbrio,
Do meio sorriso,  
Do meio termo, 
Da meia furada, 
Da meia entrada,
Da meia idade,
Da leviandade que parte o coração em metades,  
Cansado de querer ser inteiro num mundo de muitas metades e de tantas superficialidades, 
Cansado do sentimento mediano,
Cansado do protecionismo intimista que brota no ser humano,
Cansado por inteiro, 
Inteiramente cansado e com preguiça de refletir os olhares tristes e perdidos nesse meio, 
Ainda me sinto inteiro, ao menos minhas metades estão inteiramente movimentadas, Sigo cansado,  mas não derrota,
Em meio às metades, prefiro a intensidade e a insanidade,
Em meio a vida,  prefiro a dor e o sentimento de viver por inteiro.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sala, estante e porta-retrato

Estive na sala de convivência,  
Estive porta-retrato,  
Estive objeto que enfeita estante,
Estive estático e intacto,  
Estive respirando poeiras, 
Estive vendo mofo por conta de um desleixo imaterial,
Estive observando o clamor pela vida das mortas plantas de plástico,
Estive objeto num espaço de vida e morte,
Estive num encontro do convincente e do displicente,  
Estive morto para movimentar outras vidas,
Estive observando o tradicional, o racional e até o irreal,
Estive ouvindo os sons das múltiplas vozes,
Estive vendo olhos fixos,
Estive vendo brilho, ciscos e outros desatinos,
Estive representando sentimentos em meios as destinos que se cruzam no sofá,
Estive símbolo, figura, momento, movimento, pessoa, metáfora, objeto, ação e reação,  
Estive morto em vida, 
Estive objeto de estante,  
Estive mudo e inerte, 
Estive, apenas estive... 
Estive sentado na sala e troquei minha morte em vida com a do porta-retrato, 
Estive ali por alguns segundos, 
Estive e, apenas estive pensando na tristeza das salas de convivência. 
Estive pensando no enterro da vida e na morte do porta-retrato, que por ora está virado.
Estive fúnebre, mas agora estou reflexivo. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Sacolas ao vento

Há tanta energia correndo pelo mundo, que nem paramos para prestar atenção o que nos rodeia. 
Hoje é um daqueles dias, o qual você vê a vida passar através de uma sacola plástica.
Uma sacola que se arrisca a sair do chão em leves vôos num provocativo outono.
Há uma espécie de liberdade naquele voar e uma forma de prisão daquele ar.
Assim seguimos a vida, numa incessante necessidade de entender as sensações que ora nos liberta, ora nos aprisiona. 
Existe uma constante busca em entender os rumos da sacola e do vento, fruto talvez, de um vazio que está presente em nossa visão a maior parte do tempo,
Eis que esse vazio que desfoca a imagem e que quando retoma o foco, nos provoca um profundo choque de realidade. 
Embaço e embaraço na visão, o desconforto move meu coração e a reflexão move minha cabeça ao chão.
É só questão de minutos, a sacola vai e vem sem horizonte, sobe e desce por alguns segundos, sem rumo, brinca de viver e eu de aprender. 
Mais do que ver a sacola, você pode ouvir, ouvir os sons da vida, a força do ar, a energia da imperfeição em ação.
Mais do que ver a sacola, você pode sentir, sentir as inconstâncias do vento, o aperto no peito, a fadiga na respiração, o nariz em coriza, assim se apresenta mais uma imperfeição, da vida em ação.
Mais do que ver a sacola, você pode refletir, refletir o por que da sacola, mas talvez o meu caminho não tenha sido entender, apenas prestar a atenção nos sinais dessa ação. 
O meu mundo precisou estar em imperfeição, o universo precisou me provar que ele não é feito do perfeito e a sua imperfeição é a maior condição para a evolução,
E o por que da sacola persiste em minha mente, a sacola é meu objeto, é  meu dedo na ferida, é  meu ser imperfeito transformando causa e efeito, 
Tudo tem um por que, a sacola é uma metáfora para analisar a vida e refletir sobre as imperfeições, isso me remete a uma série de novos elementos, para construir uma nova visão que não desfoca a sacola e que não sufoca a beleza dos outonos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Coração insano

É insano que meu corpo e minha alma carregue seu desprezo,
É insano que o vento atinja com toda força os galhos daquela árvore, 
É insano como fico fisicamente estático olhando a tempestade chegando diante dos meus olhos, 
É insano ter uma guerra dentro de mim, em que luto numa batalha inglória e sem vitórias, 
É insano chorar sangue, vomitar sonhos em forma de arco-íris e fumar flores desfolhadas, 
É insano olhar para frente sem reconhecer um horizonte e olhar para cima sem reconhecer uma só estrela,
É insano acontecer um terremoto, sem você aqui para me segurar, 
É insano dizer que eu sou o próprio terremoto, o próprio fenômeno de natureza inconstante, uma expressão que se mede pela força com que se manifesta,
É insano dizer que perdi o chão, um elemento que me fortalece, uma espécie de terra que me permitia ir ao céu,
É insano afirmar que você me fez conhecer meus pontos cardeais, 
É insano afirmar que me desbussolei entre norte e sul, entre cabeça e pés, entre sentidos e sensações, entre sentimentos e plenitude,
É insano dizer o que a música quer afirmar, sem você, infelizmente estou vendo a noite chegar muito antes das seis,
É insano afirmar que sem você, fico perdido nas horas e nas coordenadas desordenadas, é como se meu barco estivesse perdido num imenso oceano de lágrimas, 
É insano dizer que esse nó não se desfaz por conta da escuridão que me habita, fico rivalizando uma espécie de luta idealista e até patológica, 
É insano dizer que minha evolução passou por sua ascensão em minha vida, 
É insano afirmar que mesmo faltando brilho no olhar e luz que preencha o peito, eu encontro você frequentemente em meus sonhos, 
É insano, mas é real, você ainda se faz vivo em mim,
É insano, mas meu coração ainda pulsa por você, 
É insano, mas não há vento que possa levar seu cheiro,
É insano, mas não há água que possa levar a maciez de sua pele e o poder do teu toque, 
É insano, mas não há tempo que me faça esquecer seus tons, cores, pureza e beleza,
É insano, é prisão, é libertação, é emoção, é saudade, é sonho, é o encontro dos elementos que me fazem lutar e acreditar nos meus sentimentos, essa é minha dose sã de insensatez noturna, transfigurada na mistura de nossos sabores, amores e outras dores. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cem dias

A cada novo encontro meu coração se põe a chorar sangue, pois no fundo ele sabe onde queria estar, 
Você fez eu me sentir Vênus numa história mitológica,  
Procurei em cada corpo, rosto, traços, braços e abraços a pele que me remete seu abrigo, mas não encontrei.
Observar alguém dormir nunca mais vai ser igual, pois vendo você os segundos pareciam não terminar e as horas se tornavam minutos, 
A pureza e o silêncio presentes em seu sono me fez respirar de forma única, era um tipo de ar que enchia o peito e preenchia a alma,
Minha pele queria o seu toque e era algo que o coração não poderia recusar, 
Não tivemos uma história romântica como nos contos de fadas, mas foi mágico e me fez viajar pelo universo dos sentimentos,
Não posso esperar um futuro para o que já findou, mas me permito sentir uma infinidade de emoções,
Existem espaços não preenchidos, minha cama chora pela neutralidade de cheiro e meu travesseiro grita a falta de calor do seu pescoço,  
Há um guerra fria em mim, pareço firme e curado, mas na verdade estou quente e ferido, trabalho silenciosamente as melhores estratégias para vencer essa luta que é esquecer você,  
Não sei quantos dias serão necessários para eu curar e superar o vazio no sentido amplo da coisa, 
Acho que tive um sonho realista ou surrealista, como se tivesse vendo um filme que contava histórias de dias felizes, resumidos em aproximadamente cem dias que estive com você.  
Refleti e afinal não era filme, nem sonho, tampouco história, era só saudade mesmo. 

  

domingo, 8 de março de 2015

Domingos

Os dias se vão numa velocidade constrangedora,  
Na verdade nem ligo porque amo a noite,
Só que entre o dia e a noite temos o entardecer,     
E essa transição é de enlouquecer,  
É quando a luz não se ausenta totalmente e nem se faz presente, 
Gosto de dias nublados à branco, mas essa transição do cinza ao grafite é muito triste,
Eu fico procurando uma cor de luz e alegria, um tom de inspiração, isso parece uma prisão,  
Deitado desse lado da cama, a vida parece me empurrar no abismo, 
Em dias assim, sangro sem lutar,
A única luta que venço é a de colocar alguns palavras no papel, 
Palavras borradas e lágrimas cristalizadas, O pulso pulsa ao som de body eletric,
Alguns espamos musculares,  
Algumas estrelas surgindo, 
A refrescância fúnebre e silenciosa da noite finalmente chega em meu peito,  
Não tenho medo dessa tristeza reflexiva dos domingos, eu tenho de mim! 
Só não quero ficar deitado esperando uma morte confortante num mundinho de fachada  e de pessoas infelizes,  
Quero levantar e viajar para as estrelas e me constranger com o silêncio da reflexão  e não do vazio das tardes de domingo... 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Cotidiano embriagado

Minha vida deveria ser hilária, 
Minha vida deveria ser...
Mas eu nem consigo escrever,
O vento no quarto é de ensurdecer,
A dança da cortina se faz na surdina, 
A luz que entra sem bater, bate ao entrar, 
Um rosto deflagrado de desilusão,
Uma rotina ilusoriamente massacrante, 
Entre a janela e as nuvens não há pássaros, pois já é tarde, 
Alguns vão entender esse vazio que o cotidiano pode trazer...
Quando não consigo enxergar os tons de vida, fico a pensar, o que será? O que será?
As fitas do Bonfim se lançam fora da janela, levando as cores da aquarela, 
O céu segue provocantemente azul, a janela segue portal, o quarto segue penetrado de feixes de vida e de espadas de luz.
E a vida? Segue cotidianamente embriagada de reflexão com pitadas de desilusão.