quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cotidiano incolor

Cada passo representa uma gota de sangue deflagrada em meio aos pombos da praça, 
O vermelho é a cor que pulsa aquele caminhar, passos desarranjados se misturam as sentimentos desajustados, 
Ali segue aquele rapaz de tons e sobretons despidos, os olhos eram no tom de castanhas secas e sem brilho, a pele era pálida quase incolor, os passos eram rápidos e longos, o andar era quase num ritmo de fuga, os olhares iam de um lado para o outro carregando a crença de um coração puramente leviano e sem esperança, 
O sangue circulava ralo e as gotas mapeavam seus passos quase sem barulho de vida, a boca cristalizada no sabor amargo da dor, 
Afinal quantos rapazes seguem aquele caminho ?
Em meios aos rapazes, especialmente um segue aquele caminho refletindo que tudo continua ali de alguma forma, continuam os pombos em meio aos passos, os velhos em meio as mesas de jogos, o dia em meio a mecanização da vida e a tristeza em meio aos olhares perdidos no vazio das esquinas, 
Os passos daquele rapaz continuam deflagrando o sangue que jorra em meio as fissuras do corpo e d'alma revelando que no fundo, a solidão é nossa condição em meio a qualquer forma de aconchego,
O vermelho continua vivo, mas a vivez continua morta em meio aos passos daquele cotidiano incolor.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sentido

Com as estações vem as sensações,
Os sentimentos se condessam em forma de conflitos e emoções,
O vento traz as folhagens marrom blasé em meio a caminhada,
Me sinto selvagem em meio as macieiras devastadas,
Estou no paraíso sombrio porque você não me deixa atravessar pro outro lado,
Eu quero voltar à essência humana, ao amor puramente sentido,
Os dias são como noites sombrias e as noites são como dias fúnebres,
Vivo ouvindo drama, entendendo a razão e sentindo a emoção.
A lua segue rasgando minhas nuances,
Quero fazer a travessia, mais seus olhos negros me deixam hipnotizados e o único brilho que tenho é o da lua me ofuscando,
Alguns acreditam que o amor é a salvação, mas eu não vejo rendido um só coração,  
Tenho o sabor da dor escorrendo levemente pelos lábios machucados, sinto tudo tão intensamente,
Sinto o sal cristalizar as salivas que anseiam seus beijos, assim numa madrugada triste de verão,
Sigo confrontando meus sentimentos as estações e onde está você que não traz meus sentidos de volta?
Não traz calor nem frio, nem o fresco do outono, tampouco as flores da primavera,
Não quero as sensações simplesmente corporais,
Não quero um corpo elétrico em meio as energias puras do universo,
Preciso seguir pela estrada da vida, seja caminhando, voando, viajando, encontrando os sentidos e as sensações, essa é minha loucura sã, essa é minha liberdade presa, essa é minha essência desconstruída, meu caos calmo, meu eu fora de mim, eu simplesmente encontrando a paz da guerra que habita meu ser!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Tudo de mim

O universo conspira para que você tenha tudo de mim, 
Tudo que simplesmente sobrou de bom de todos esses novembros,
Tudo que nem o mais belo sorriso conseguiu até hoje,
Estive rabiscando nos cantos de folhas e nos blocos de notas sobre todas as estações, Tentando registrar e entender que tudo nem sempre representa o suficiente para as pessoas, 
Estive fragilmente perdido por não poder te dar meu todo, que por hora fragmentou-se aqui dentro, 
Agora tudo o que posso te dar será suficientemente fragmentado, 
O muito talvez seja pouco ou vice-versa, só depende de quem dar e de quem recebi,
Talvez tudo não passe de possibilidades e de trocas fadadas a um começo sem fim, 
Tudo parece ser cármico nessas estações,
Tudo que as estações trazem me faz lembrar você e com saudades eu conto os dias para te ver,
Assim como o fim do dia, tudo vai no minuto seguinte que você se vai, mas retorna com força total com o nascer do sol,
Sem você, tudo parece me remeter ao vazio da solidão que a alma carrega,
Tudo parece mágico quando você dorme feito um anjo numa terra de monstros, 
Tudo parece vivo e alimentado quando você abre seu sorriso, 
Tudo parece se perder nas suas curvas, até eu.
Tudo parece provocação do universo comigo,
Tudo parece testar minhas emoções, 
Tudo me remete a desfazer o jogo que me fizeram acreditar ser o amor,   
Tudo parece cair por terra, pois no fundo carrega a pureza de uma flor no jardim, 
Há sempre exceções para o todo,
Há dias em que você não chega verdadeiramente em mim, dias em que meu peito se esvazia como num fim de tarde silenciosamente fúnebre,
Tudo talvez seja uma forma excessivamente desesperada de tentar lhe ter, mesmo sem reconhecer todas as estações do seu ser,
Tudo talvez faça sentido para mim e quem sabe pra você,  
Tudo talvez seja uma forma de aprender verdadeiramente a superar os egos e as expectativas daquilo que se quer, mas nem sempre se pode ter,
Tudo expressa a forma como se olha para o todo, 
Todo esse seu tudo, mesmo que de exceções, me faz ser um todo cheio de tudo,
Descobri que nem tudo que todos possam me dar, me fará pleno de todas as formas, pois eu nunca poderei dar o todo que se espera e ter o todo que espero!
Tudo em mim vem com as estações,
Tudo em mim é mutável e adaptável,
Tudo em mim varia, floresce, seca, rega, nasce, morre, vive e quem sobreviver ao meu todo, terá a possibilidade de um tudo mais maduro e saboroso, assim como as variadas frutas das quatro estações.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Corridas e espelhos

Eu grito no espelho para tentar não lhe ouvir, sigo indo para as corridas, sendo os carros e as batidas,
Sigo vencendo as corridas para manter minha vida,
Vejo no espelho um reflexo que me traz um desfecho,
Desço ao som de uma música decadente quase indecente, com os olhos deflagrados de sangue de cor vermelho drama,
Não entenda mal baby, não vai ser o brilho dos seus olhos negros que vai me salvar das corridas,
Sigo colocando meu coração para chorar, como se não houvesse um amanhã ou um redentor para me amar e salvar,
Sigo adorando essa dor dos gritos duplamente perdidos e de ecos que fingem me enganar,
Eu não quero sair desse labirinto que as corridas cismam em me levar, eu não quero encontrar aquele que habita ali do outro lado, no reflexo da minha própria face, porque ele é perverso e nunca vai perder as corridas,
Eu luto em frente aos espelhos para não ver ele se vangloriar, até apago as luzes negando a existência das corridas, mas no final ouço off to the races e sigo correndo pros espelhos, esse banheiro é uma espécie de igreja pros bêbados, um hospício, um muro das lamentações, quase um  templo de súplica para quem briga com espelhos,
O que o espelho tira a água nutri e ficamos disputando as corridas enquanto nossos sangues escorrem pela pia e pelo ralo quase num ritual de decapitação, vida e morte se confundem, Eu grito no espelho, canto, mas o som da música tenta me abafar para continuar te alimentar, é uma loucura quando tento lhe matar,
No final  não posso lhe matar porque meus olhos queimam só de pensar e os espelhos ameaçam trincar,
Vou ter que te respeitar até o fim dos tempos e continuar seguindo para as corridas, como num ritual de vida, num ritual de dor e clamor físico,
Afinal você só sobrevive do que em mim se manifesta como alimento ao seu ego, ou seja, pão, vinho, carne, lágrimas e olhos se misturam e lhe dá meu lado quente e vivo, meu lado fúnebre e morto, você é o morcego que me cerca nas corridas, querendo meu sangue vermelho drama e  meus olhos preto brilhante.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

É primavera

A primavera chegou mas meu jardim ainda está sem vida e sem cultivo, hoje o dia está branco, será que chove? Estou na janela observando o jardim, faço prece para que a água chegue e a dinâmica da renovação seja preservada, para que as muitas folhas secas caiam e a vida se renove trazendo beleza e o verde da esperança.
O meu jardim nunca foi muito florido e diversificado, porque a cada lágrima, é como se eu matasse uma flor, é como se eu quisesse privar uma espécie de vida em mim, é como se eu quisesse dar fim a relação do espinho e da rosa, é como se eu quisesse seguir seco, mais terra do que vida, mais no chão do que se arriscando nos galhos das plantas.
O meu jardim segue vivendo as mínguas, esperando ser regado pela chuva que traz o doce prazer da vida, por hora ele é regado pelas lágrimas que trazem o sal que contamina o belo e o nutrido, secando a terra para as próximas estações. 
O meu jardim vive dias de desespero, dias vazios, dias em que só se faz ventar, criando sobretudo a expectativa de chuva, há dias que chegam os pingos, mas que não regam e nem trazem a verdadeira vida ao jardim. 
Imagino que nessa seca, eu possa levar água no regador e dar vida momentânea, ao menos as rosas, que choram e imploram o doce sabor da água, realmente é isso que faço, contudo o poder da chuva é diferente, a nutrição é outra, a magia e a beleza traz tons de vivez ímpar, enquanto isso vou regando até que a chuva realmente chegue no meu jardim.
Nos dias que ventam muito, fico na janela, num mix de reflexões e medos, em prece, em comunhão, querendo a chuva necessária, sem excessos, afinal não quero mais as tempestades do passado que deixaram meu jardim quase destruído, em que se viu os reflexos da extinção de algumas espécies e o nascimento de outras, um novo jardim é cultivável, com novas cores, tons e espécies, mesmo com medo, essa dinâmica faz com que o jardim fique mais belo e mais forte, ao pé que as chuvas não são temidas, mas bem vindas.
"Estou trabalhando "A cerca" do jardim, vou abrindo aos poucos para entrada e apreciação, vou levando vida, pés, mãos, regadores e principalmente esperança de juntar tudo isso à chuva e finalmente abrir a porta, correr em meio ao ápice da vida e de um jardim regado verdadeiramente com amor.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Visão

"Um olhar que apenas observa o que lhe cerca, não há cerca pra um olhar, mas há foco pra um olhar que observa, afinal o meu olhar até te observa, mas não é para clamar abrigo, luz ou brilho, ele observa como se você fosse apenas mais uma estrela na imensidão do céu de infinitas possibilidades, um céu em que você morreu e já não brilha mais."

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Livre para amar

A beleza carrega a dor que vai além da perfeição,
Beijos e abraços vão além do simples gesto de aproximação,
Amores estão além do ascender das luzes, de velas,
Multidões servem para você reconhecer algo reluzente, 
Voos e pássaros combinam tanto quanto queijo e goiaba,
Entrega não necessariamente por redenção,
Momentos não necessariamente de gestos,
Pessoas não necessariamente como carmas, 
Pesos não necessariamente de medidas,
Romances não necessariamente de conto de fadas,
Tatuagens não necessariamente iguais,
Idades não necessariamente compatíveis,
Músicas não necessariamente no mesmo ritmo, talvez no mesmo sincronismo,
Admiração não necessariamente a que endeusa,
Gatos não necessariamente egípcios, talvez persas,
Máquinas não necessariamente do tempo,
Sentimentos não necessariamente de dor,
Fugas não necessariamente por estradas,
Partes não necessariamente de fragmentos, talvez de união,
Paus e pedras não necessariamente atirados,
Fogos não necessariamente de artifício,
Necessariamente eu coloco em cheque o tempo passado, pois o que eu tive não necessariamente era o que eu precisava, na verdade não me interessa saber, não importa se houve negações ou afirmações, porque a surpresa que o novo trouxe me faz bater e rebater sem necessariamente incluir, excluir ou associar passado, que o presente continue a me presentear com seu convívio, sorriso, pele, pelos e olhares.
Sigo Refletindo!